sexta-feira, março 27, 2009

Pela pele, pelos pêlos


Tenho uma amiga muito querida que me diz sempre que um longo relacionamento, quando termina, não é porque não deu certo. Se foi longo, deu certo, foram anos acertando. Mas o fim sempre é doído, mesmo considerando acertos.

Duas canções sempre foram simbólicas pra mim sobre relacionamentos: “O seu amor”, do Gilberto Gil, e “Todo sentimento”, do Chico e do Cristóvão Bastos. A primeira porque ensina que amar é deixar o outro livre para amar, e a segunda para não deixar o amor cair doente, para terminar antes disso, ou como outra grande amiga me lembrou hoje, poder viver “o tempo da gente se desvencilhar da gente”.

É claro que o Chico Buarque é um sufoco nessas horas, de tanto que acerta inclusive nas tragédias: “Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor? / Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor?” Ou quando lembra que “Posso até / Sair de bar em bar, falar besteira / E me enganar / Com qualquer um deitar / A noite inteira / Eu vou te amar”. Mas essa última é o que não teve acertos, acho.

Os finais das boas histórias, eu acredito, devem valer para o outro sempre o desejo de “Isopor”, de Kléber Albuquerque, em parceria com o Élio Camalle:

Que a luz da lua escorra
Pela pele, pelos pêlos
E que raios de sol embaracem seus cabelos
Que a vida lhe dê muita saliva
Pra lamber sonho em carne viva
Que seu riso não tenha o mínimo pudor
Que os ventos soprem sempre a seu favor
Que você encontra a cama feita, a mesa farta
A casa em festa
Que a boa estrela grude no meio de sua testa
E que o mal tenha paredes de isopor
Tudo de bom

2 Comments:

Blogger Gabibis said...

Acontece que apareci aqui sem querer... fui buscando e buscando e me esbarrei nesse muro com poesia e música que gosto.
Só pra dizer, que adorei.

Um beijo.

11:52 AM  
Blogger ana luiza libânio dantas said...

Entristece-me pensar em “fim”. Mas tens razão ao dizer que se foi longo, deu certo. Tudo tem um fim, afinal. Para essas coisas boas, temos o recurso da memória que as traz de volta. Como Chico mesmo escreveu: “A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas.” (Leite derramado, 41)
O que vivemos é nosso para sempre, mesmo que um dia acabe.

2:58 AM  

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